Rede FELCO Minas

A organização coletiva em favor do cinema social.

Vários tempos...

O tempo e o lugar de fato dizem muito. Dizem muito sobre pessoas, sobre pensamentos, sobre ideologias e sobre a reconstrução delas. O recém lançado filme de Eduardo Escorel, "O Tempo e o Lugar" (2008) conta a história de um ex militante do MST, agricultor familiar que foi integrante de diversos movimentos sociais, alguns ligados à igreja e sua proposta de libertação; participando ativamente de uma época áurea do movimento, quando ele ainda tinha no Lula a grande figura que iria realizar a famosa reforma agrária. O eixo central do filme é a história de vida desse personagem e sua rotina familiar, que é amplamente voltada para a política, mas não aquela política que promove o debate sobre si visando mudanças das realidades, mas aquela política que todos nós conhecemos, voltada para fins eleitoreiros em busca de votos, com candidaturas que requerem cargos de representatividade e poder. Genivaldo Vieira da Silva, ou simplesmente Geno, possui dois filhos que estão envolvidos com a tal política. Mas eles têm maneiras diferentes de ver a ordem das coisas. Um concorda com o pai na sua desilusão com o governo, e o outro, por ser um fiel seguidor do Partido dos Trabalhadores, se sente como um revolucionário radical (quase um Che), mas não abre mão de alianças partidárias para chegar ao poder e mandar. Pois, na visão do filho, chegando lá, “é como o Lula, ele manda”! Por meio de críticas ao MST em sua forma de conduta e organização popular, Geno deu ao diretor a inspiração para o filme.


Em tempos diferentes, haja vista que o primeiro contato do diretor com o personagem ocorreuem 1996, depois 2005 e por último em 2007; há a tentativa de construir dois Genivais, duas figuras de representatividade local, mas que têm seus próprios anseios de vida e acredita nas vias eleitorais para se praticar a democracia. No fundo, o que fica é de um lado a mis-en-cene de um homem que quer desesperadamente mostrar como subiu na vida e conseguiu criar os filhos, e de outro a curiosidade gerada pelas denuncias de descomprometimento de um movimento de massa com a realidade nordestina camponesa, movimento esse que já se tornou um tanto quanto sacrossanto para os defensores de causas populares. É inegável a importância do MST em termos de conquistas sociais e também midiáticas quando consegue chamar atenção para um tema crucial e tão pouco discutido nos termos legais como a terra no Brasil agrário e rural, que promove o patriarcalismo da propriedade privada de várias formas, inclusive permitindo uma mídia que tem como principal conduta a criminalização dos movimentos sociais. O grande problema é a não aceitação, por parte do público, das críticas de um ex militante, que viveu intensamente ocupações e que exerceu função de liderança nos finais da década de 1980 e início de 1990. Eduardo Escorel, que lançou o filme nesta segunda-feira (19) na sala Humberto Mauro do Palácio das Artes (BH-MG), disse estar percebendo certo desconforto com o filme vindo de espectadores fieis aos ideais do MST, que acreditam estarem vendo um filme contra o seu movimento. Narrativas de luta e repressão policial são ditas por Geno, que foi expulso do movimento há alguns anos por não concordar com as excessivas ocupações sem contextualização política e sem a possibilidade de permanência no campo. Ele, naquela época, questionava a organização nacional por não ver respeitadas dentro do MST as diferenças da realidade camponesa do nordeste. Ele já havia sido, antes disso, expulso da igreja, quando descobriu, ou melhor, quando foi apresentado à idéia de que Deus não existe e passou a não acreditar mais em religião. Apesar disso, Genivaldo faz versos sobre a Diviva Criação.

O que interessa nesse filme é que o diretor não se importa muito nos impactos que todas essas demonstrações explícitas de peleguismo irão causar. Ao que tudo indica, ele quer ser muito mais a mosca na parede que nos traz um problema enquanto brasilidade, enquanto construção de uma nação problemática, desigual; do que questionar o impacto que um filme tão aparentemente descomprometido pode causar em um circuito comercial de circulação nacional, onde cada cabeça é uma sentença. Vale lembrar que um dos lugares onde o filme é ambientado é nada menos o estado brasileiro de Alagoas, senão o maior estado em índices de corrupção do país, com o governador, Teotonio Vilela Filho (PSDB), que venceu a eleição de 2006 sob denúncias de fraudes, atualmente é caçado por corrupção.

O diretor

Um dos principais nomes do cinema brasileiro, o diretor, montador, roteirista e ensaísta Eduardo Escorel foi colaborador de cineastas do Cinema Novo como Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade e Leon Hirszman. Entre seus trabalhos, fez a montagem de "Terra em Transe", "Cabra Marcado para Morrer", de Eduardo Coutinho, e do recente "Santiago", de João Moreira Salles.

Veja entrevista do diretor no Bate-papo UOL:

http://cinema.uol.com.br/ultnot/2008/05/15/ult4332u764.jhtm

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Respostas a este tópico

Aline, excelente post!! Valeu
:D

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bacana que tenha gostado!!
Precisamos sempre seguir pensando sobre as coisas que nos rodeiam né?..

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É..
quem me déra se eu tivesse inspiração todos os dias!!
Mas mudando de assunto.. e o filme? alguém mais viu? VC viu Debora?

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O FELCO - Festival latino Americano da Classe Obrera de Cinema e Vídeo propõe o acesso democrático à produção cinematográfica. Idealizado por estudantes e profissionais de cinema, o Festival é um projeto de democratização, circulação e formação de público da produção cinematográfica latino-americana que pretende criar uma rede entre a produção e o público de cinema. O projeto surge a partir da constatação da precariedade no intercâmbio da produção entre os países latinos. A proposta é promover a consolidação de sistemas alternativos de exibição tanto por questões econômicas, de identificação cultural e da mobilidade nos fluxos comunicacionais ideológicos. O projeto mapeia as produções independentes e cria um circuito de exibição alternativo tendo como referencial os espaços de Movimentos Sociais. A finalidade é exibir filmes e mapear a produção independente.

Fonte: ALAIC - Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación

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