Rede FELCO Minas

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Jornal Hoje em Dia Caderno PLURAL

Um lugar ao sol para Tony Vieira, o cineasta que filmou em Contagem


Alécio Cunha
REPÓRTER

Desde menino, em Dores do Indaiá, Mauri Queiroz (1938-1990) é louco por cinema. Gostava, principalmente, dos faroestes. Seu sonho? Ser ator e diretor de cinema. Aos 12 anos, foge com um circo, onde aprende os mais variados ofícios: baleiro, locutor, trapezista.
Ele muda o nome para Tony Vieira e, já morando em Contagem, onde é operário da Companhia de Cimentos Itaú, atrai a atenção de grupos de teatro.
Galã de novelas da TV Itacolomi, vai parar em São Paulo, iniciando fértil flerte com o cinema: 32 filmes, entre 1972 e 1988, todos como ator e diretor, fora trabalhos com outros cineastas, entre eles Mazzaropi (“Uma Pistola Para Djeca”).
Ano que vem, completam-se 20 anos da morte de Tony Vieira, vítima de câncer generalizado. Em Contagem, um movimento de resgate de sua obra, liderado pelo amigo Hitagiba Carneiro, ator em vários de seus filmes, planeja série de atividades para que a data não passe em branco.
“Contagem precisa conhecer melhor a obra de Tony Vieira, que adorava a cidade e chegou a filmar por aqui um de seus longas, ‘Os Violentadores’. Há muito preconceito contra ele, por ter feito filmes eróticos. As pessoas ligam o Tony à pornografia. É um equívoco”, garante Hytagiba Carneiro.
A obra de Tony Vieira, através de filmes como “A Filha do Padre”, “Os Depravados”, ‘Os Violentadores”, “As Amantes de um Canalha” e “O Último Cão de Guerra”, é marcada pela força do binômio sexo e violência.
Paródia e intertexto são dois elementos cruciais na estética fílmica de Tony Vieira. Seus faroestes são paródias de um gênero paródico por excelência: o western spaghetti italiano, cuja matriz referencial eram os faroestes norte-americanos. “Aqui no Brasil, os filmes do Tony eram chamados de western-feijoada”, lembra Hytagiba Carneiro.
A historiadora Carolina Dellamore, mestre em Memória Social, não esconde o encantamento com a obra de Tony Vieira. Ela integra um grupo de jovens pesquisadores que, na Casa de Cultura de Contagem, assiste aos filmes do ator e diretor mineiro para tentar compreender melhor os paradoxos que envolvem sua obra. “Ele é incompreendido. Existe uma resistência aqui em Contagem até para que seu nome seja dado ao Cine Teatro da cidade. Precisamos mudar este quadro”, afirma ela.
Prevista para setembro, uma exposição de fotografias, cartazes e figurinos utilizados nos filmes de Tony Vieira é o pontapé inicial de um projeto bem mais amplo, que inclui a catalogação completa de sua filmografia e a restauração desse material, hoje disperso, em DVD.
“Nossa intenção é fazer com que esta mostra seja o começo de um novo olhar sobre o Tony”, conta Henrique Dias, da Casa de Cultura, lembrando que o resgate do legado estético do artista teve início com o trabalho da pesquisadora Noêmia Rosana.
O acervo de Tony Vieira, que era mantido precariamente pelo amigo Hitagiba Carneiro, foi doado há quatro anos ao Centro de Referência Audiovisual (CRAV), da prefeitura de Belo Horizonte. Parte deste material voltará a Contagem para a mostra, que terá, ainda, sessões comentadas dos principais destaques da filmografia de Tony Vieira.
“Estamos procurando o contato de atores e atrizes que trabalharam com Tony para que eles possam vir à exposição”, frisa Carolina Dellamore. São nomes como o comediante Heitor Gaiotti e a atriz Claudete Joubert, musa de Tony Vieira, de quem foi companheira na década de 1970. Ela se casou com o cineasta Affonso Brazza, de Brasília (DF), bombeiro que dirigiu cultuados filmes de ação na capital federal. Com a morte de Brazza, ela reside em São Paulo (SP).
No último final de semana, a lembrança do nome de Tony Vieira foi ventilada no Festival de Cinema de Ouro Preto, que, nesta edição, homenageou a produção cinematográfica brasileira da década de 1970, com a presença de atrizes como Zilda Mayo, musa das pornochanchadas (leia entrevista com ela na página 3, em proseio exclusivo com o repórter Paulo Henrique Silva).
Cineastas que tiveram sua formação diretamente ligada ao circuito fílmico da Boca do Lixo paulistana nos anos 1970, como Guilherme de Almeida Prado (“Flor do Desejo”), teceram comentários a respeito do trabalho do mineiro Tony Vieira.
“Eu tive uma única conversa com ele, no bar Soberano, antes de dirigir ‘A Tara de Todos Nós’. Fiquei muito emocionado com a disponibilidade dele para querer me ajudar e explicar o que precisava para ser um diretor bem sucedido. Ele falou de uma forma muito sincera, ele queria que eu me desse bem”, conta o diretor Guilherme de Almeida Prado.
Um dos principais desafios da equipe que tenta um lugar ao sol em Contagem para a obra ‘maldita’ de Tony Vieira é, sem sombra de dúvida, domar o preconceito, principal entrave à ressonância de uma obra polêmica.

Musa da Boca do Lixo tira a roupa em 40 filmes

Paulo Henrique Silva
REPÓRTER

“Seus pais sabem quem eu sou, Zilda Mayo”, avisa a atriz que, antes de entrar no auditório do Centro de Convenções de Ouro Preto, era uma ilustre desconhecida para os presentes, a maior parte formada por jovens que não tinham nascido na época em que atraía milhares de espectadores aos cinemas, durante os anos 70, quando era uma das musas da pornochanchada. Ao lado de Helena Ramos, Matilde Mastrangi, Neide Ribeiro e Aldine Muller, Zilda fez parte dos sonhos dos homens ao tirar a roupa em mais de 40 filmes, dentro de um formato que se consagrou por conta do humor, da ligeireza da narrativa e das muitas mulheres peladas, não necessariamente nessa ordem.
Como todas as atrizes da Boca do Lixo, como era chamado o reduto paulista onde eram produzidas as pornochanchadas, ela conheceu o sucesso mais pelos atributos físicos do que pelo talento dramático. Chamava a atenção pelos belos olhos e pelo corpinho mignon. Uma das convidadas da quarta edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP), encerrado na terça-feira, Zilda avivou os tempos em que o cinema não tinha nada da sisudez de hoje. “Íamos para o set de filmagem numa kombi caindo aos pedaços, mas ninguém reclamava”, recorda a atriz, hoje divertida cinquentona (de 1953), que carrega no sotaque de Araraquara, no interior paulista, cidade onde nasceu.
Embora torça o nariz para algumas pornochanchadas, ela não renega o seu passado. Se pudesse voltar no tempo, faria os mesmos filmes, mas buscaria aproveitar melhor a época em que era sinônimo de gordas bilheterias e tinha suas fotos de biquini diariamente publicadas nos jornais mais sensacionalistas. “Fiz muito sucesso, mas não fiquei rica”. Sumida da mídia desde a metade dos anos 80, quando o gênero deu lugar às fitas de sexo explícito, só lamenta que tenha sido rotulada mais tarde, quando as portas se fecharam para ela na TV e no cinema, seguindo a mesma sina de outras rainhas da Boca do Lixo. Atualmente, ela se dedica à produção de peças teatrais em São Paulo.
Com seu jeito divertido de falar, que conquistou de imediato a plateia ouro-pretana, Zilda defende a pornochanchada das críticas sobre seu conteúdo apelativo, destacando a hipocrisia como tachavam a nudez daqueles filmes. “Nu é nu, não existe esta história de nu artístico. O nu é o mesmo na pornochanchada, em Nelson Rodrigues e em Jorge Amado. Hoje a mulher se expõe muito mais do que naquele tempo. E desde novinha. Na minha época, com 30 anos estávamos no auge. Agora, a questão do sexo está mais forte. E pensar que a gente que era a sem vergonha!”, registra Zilda, que está escrevendo uma autobiografia, que ganhará o título “Zilda Mayo para os Íntimos”.
A atriz colocará no papel a história de uma empregada doméstica que embarca para São Paulo para tentar vencer na vida e que, após ler numa revista que precisavam de atores para o filme “Ninguém Segura Essas Mulheres” (1976), de José Miziara, entrou com tudo no mundo da pornochanchada. “Era uma ponta e atuava no meio da rua com Nádia Lippi e Jece Valadão”. A produção foi bancada pelo apresentador Sílvio Santos, que logo em seguida a chamou para ser uma de suas assistentes de palco. “Ficava ao lado de carros e motos e entrava muda e saía calda. Fui mandada embora depois que eu aceitei participar do show do Sargentelli, como dançarina e com o busto de fora”.
O sucesso veio rápido, consagrando-se em seu segundo filme. Com “Possuída pelo Pecado”, ela contracenou com David Cardoso e Helena Ramos, sob a direção de Jean Garret, um dos bambambãs da Boca do Lixo e responsável pelo nome artístico de Zilda, trocando o Sedenho por Mayo. “O Garret me ensinou muito. Com ele aprendi a ler, a montar e a dublar. Eu mesma colocava a voz em meus personagens. Depois foi um filme atrás do outro”, destaca. Entre os maiores êxitos de sua carreira, está “A Ilha dos Prazeres Proibidos” (1977), apresentado no CineOP.
Zilda não tirou a roupa em todos os longas, mas foi na forma desinibida que estampou posteres na porta do armário de muitos adolescentes. Embora afirme que era tímida, a vergonha de tirar a roupa na frente das câmeras dependia muito do filme. “É uma coisa complicada de explicar. Em algumas cenas, tinha (vergonha), em outras não. Na maioria das vezes, via como algo natural e levava tudo profissionalmente. Era como o amor, em que você olha para uma pessoa e sente uma coisa forte. Outras vezes, você olha e não sente nada. Fiz alguns filmes que não gostei, mas precisava trabalhar, né?”.

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O FELCO - Festival latino Americano da Classe Obrera de Cinema e Vídeo propõe o acesso democrático à produção cinematográfica. Idealizado por estudantes e profissionais de cinema, o Festival é um projeto de democratização, circulação e formação de público da produção cinematográfica latino-americana que pretende criar uma rede entre a produção e o público de cinema. O projeto surge a partir da constatação da precariedade no intercâmbio da produção entre os países latinos. A proposta é promover a consolidação de sistemas alternativos de exibição tanto por questões econômicas, de identificação cultural e da mobilidade nos fluxos comunicacionais ideológicos. O projeto mapeia as produções independentes e cria um circuito de exibição alternativo tendo como referencial os espaços de Movimentos Sociais. A finalidade é exibir filmes e mapear a produção independente.

Fonte: ALAIC - Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación

Notícias publicadas em www.imersaolatina.com

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