Seguinte: como em vários lugares do Brasil e por motivos muitos, mais uma córgia de interesseiros resolveu usar das brechas públicas e populares para agraciar quem de nada tem de popular e nem mesmo segue os interesses daqueles que formam a maioria! Dessa vez aconteceu na Bahia de todos os Santos, onde uma louca resolveu se meter na terra dos Orixás e provou o gosto da impopularidade.
Nosso cineasta homenageado na mostra FELCO - Retrospectiva BH Brasil, Carlos Pronzato, estava lá, mas não por muito tempo...
Publicado em Correio da Bahia - 16/04/2008
Homenagem sob protesto Tumulto marcou sessão de entrega da comenda Maria Quitéria à secretária do Planejamento Kátia Carmelo
Mariana Rios
Vaias, bate-boca, confusão, comida de santo em coquetel e até ameaça de vereador. Teve de tudo na concorrida sessão solene para entrega da comenda Maria Quitéria à secretária municipal do Planejamento, Kátia Carmelo, ontem à noite, na Câmara de Vereadores. O povo-de-santo compareceu, ainda revoltado com a destruição, em fevereiro, do Terreiro Oyá Onipó Neto a mando de Kátia Carmelo, então superintendente de Controle e Ordenamento do Uso do Solo do Município (Sucom), e houve troca de acusações entre manifestantes e uma comitiva pró-Carmelo que lotou o plenário. Sobrou até para o cineasta argentino Carlos Pronzato, expulso da sessão.
Os protestos não impediram que Kátia recebesse a homenagem, proposta pelo vereador Palhinha (PSB), que fez questão de dissociar a agraciação com o nome da heroína baiana à aprovação da maioria ao Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU). “É a democracia (sobre o protesto). Acho que as pessoas devem ter mais humildade quando estão erradas e não querer fazer do erro um acerto. Há 12 anos sou funcionária pública de carreira da Sucom. Tenho a consciência tranqüila”, declarou a secretária, momentos antes. Ao entrar no plenário, os ânimos se exaltaram e o povo-de-santo, tendo à frente mãe Rosa, ialorixá do terreiro destruído no Imbuí, vaiou ruidosamente Kátia. As manifestações de apoio também encheram a casa.
O presidente da Câmara, vereador Valdenor Cardoso, que no domingo foi ao terreiro pedir à sacerdotisa que não fosse à homanegem, bradou: “Não vou permitir desrespeito. Esta Casa vota projetos de interesse das pessoas que estão aí na galeria. É ameaça, sim!”, disse. Na Câmara está o projeto de lei para regularização fundiária dos terreiros. Pronto, o bate-boca engrossou, seguranças da casa e policiais militares foram até a galeria para tentar acalmar os presentes. Depois da intervenção, o povo-de-santo deu as costas à mesa e Kátia entrou no plenário sorrindo e batendo palmas.
Representantes de movimentos negros, de terreiros e associações de defesa da cultura afro decidiram então deixar o plenário em protesto. Na saída, mais confusão. Uma discussão entre Pronzato, que assistia à concentração dos manifestantes na porta da Câmara, e um preposto pró-Carmelo acabou com a expulsão do cineasta, autor de documentários sobre a greve de fome do bispo dom Luiz Cappio e a da revolta estudantil em 2003, contra o aumento da tarifa de ônibus. “Queria fazer um filme sobre essa sacanagem que estão fazendo aqui”, gritou, nas escadas de acesso ao plenário, depois de ser imobilizado e arrastado por seguranças da Câmara. O episódio foi suficiente para que as partes aquecessem os ânimos e por pouco a confusão não acaba em pancadaria.
Mestre Curió e crianças, alunos da escola de capoeira, também estavam na manifestação. Na porta da Câmara, seguravam cartazes, como “Cometa um crime e ganhe uma medalha”. Kátia foi denunciada em março pelo Ministério Público Estadual por preconceito e intolerância religiosa. “Os orixás estão lá no chão ainda. Esta sessão é uma falta de respeito”, rebateu mãe Rosa, que cobrou o ressarcimento dos objetos sagrados detruídos pela Sucom na ação desastrada e a legalização fundiária do terreiro.
Mestre Curió também saiu em defesa da causa. “Capoeira e candomblé são irmãos, são a cultura afro-brasileira. A entrega desta medalha é um crime”, afirmou o capoeirista. O vereador Palhinha tentou sustentar sua proposta. “Não é um título político. É o reconhecimento de uma mulher que prestou relevantes serviços para o município de Salvador”, explicou.
Moradores da rua São Camilo, no Imbuí, onde o terreiro funciona, apoiaram a secretária. Sem o povo-de-santo, a sessão prosseguiu. Depois de tanta atividade, os convivas deleitaram-se com mais de 500 acarajés e abarás – comida ofertada a Iansã, orixá do terreiro destruído.
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