
O PRESIDENTE NEGRO: a profecia de Lobato, que deu certo.
* Marco Antônio Soares de Oliveira.
Curiosamente ontem folheava na estante a coleção de livros de Monteiro Lobato e deparei-me com o volume “O Presidente Negro”, que ele escreveu em 1926, único romance adulto do escritor. Embora ainda não tivesse pisado em terras norte-americanas quando escreveu esse livro, Lobato ambientou sua história futurista nas terras de Henry Ford. Primeiramente, em 1926, o autor publicou o romance com o título “O Choque” e, duas décadas depois, mudou o nome para “O Presidente Negro” com o subtítulo “romance americano do ano 2.228”. Anteriormente foi publicado em folhetins no jornal carioca “A Manhã”. Naquela época, Monteiro Lobato, escritor nacionalista e sobejamente corajoso, preso também porque defendia o nosso petróleo, abordou temas nunca antes ventilados pela sociedade como a segregação entre brancos e negros, aculturação, feminismo e, ainda profetizando o surgimento de uma rede pela qual as pessoas se comunicariam e trabalhariam à distância.
Monteiro Lobato no seu livro profetizava que o primeiro presidente negro seria eleito em 2228 e seria o 88° presidente norte-americano. As eleições de 2008, portanto, anteciparam as previsões no romance de Lobato daquela data em 28 anos e Barack Obama, figura na lista da Casa Branca como o 44° presidente que ocupará a cadeira presidencial. Aos 47 anos ele torna-se o primeiro negro a governar o país, ao derrotar o rival republicano John McCain. Seu nome tem origens curiosas. “Barack” é uma palavra hebraica para raio. “Obama” quer dizer abençoado em suaíli, um dos idiomas do Quênia. Obama escreveu dois livros de sucesso que deram contorno à sua identidade política. “A Origem dos meus Sonhos”, que trata do esforço para ligar-se às suas raízes na África, e “A Audácia da Esperança”, que apresenta sua filosofia política e os valores defendidos pela mãe e os avós.
Obama também ganhou a preferência do presidente Lula, que se comparou ao democrata e falou da expectativa de ver o primeiro negro à frente da Casa Branca. O livro “O Presidente e Negro” de Monteiro Lobato foi relançado neste ano pela Editora Globo (Travessa do Ouvidor, 17, cep. 20040-040; fone (21)3231-8015, Rio de Janeiro) e contém 202 páginas. A história é narrada por Ayrton, funcionário da firma paulista Sá, Pato & Cia, que depois de um acidente de carro, é iniciado na revelação do futuro por Jane, filha do professor Benson, cuja invenção – o víroscópio – lhe permite devassar o futuro. Jane, numa série de sessões domingueiras, revela ao espantado, mas entusiasta Ayrton os episódios que envolvem a eleição do 88° presidente norte americano. Três candidatos disputam os votos: o negro Jim Roy, a feminista Evelyn Astor e o presidente Kerlog, candidato à reeleição. A cisão da sociedade branca em partido masculino e feminino possibilita a eleição do candidato negro. Perante o fato consumado, a raça branca engendra uma típica “solução final”: a esterilização dos indivíduos de raça negra camuflada em processo de alisamento de cabelos.
Paralelamente a esta narração, o romance focaliza o amor de Ayrton por Jane, e a missão literária do moço: escrever um romance daquilo que lhe narrava. É deveras interessante este livro de Lobato, que escrito em 1926 profetizou exatamente há 82 anos a realidade dos nossos dias: a eleição de Barack Obama, o primeiro presidente negro que entra para a história dos Estados Unidos.
Outro autor que abordou o problema foi Irving Walace (americano), em 1964, com o livro “O Homem” em que o personagem negro Douglas Dilman conjetura sobre seus planos de governo. No cinema, o primeiro presidente negro de Hollywood foi interpretado por Sammy Davis Jr, então com sete anos, em “Rufess Jones for President”, em 1933, um curta musical no qual um menino é eleito para ocupar a Casa Branca.
Quase 40 anos depois, James Earl Jones figurou no primeiro filme a retratar de forma séria um político eleito para a Casa Branca, em “O Presidente Negro”, de 1972. Hollywood ainda abordou o tema em “Impacto Profundo” (1998) com Morgan Freeman, filme catástrofe no qual um enorme meteoro ameaça destruir a civilização e o ator encarna o presidente americano Tom Beck. O ator David Palmer no seriado “24 horas” encarna o papel de presidente negro norte-americano. No filme de 2003 “Um Pobretão na Casa Branca” Chris Rock é o ator negro principal. Depois da eleição de Obama muitos filmes sobre o tema deverão aparecer.
* jornalista e escritorde Alfenas-MG
( marcoa.oliveira@ig.com.br )
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